Fragmentos II

Publicado: janeiro 25, 2012 em Uncategorized

É patético, mas o silencio diante de uma folha em branco faz transbordar idéias que não servem para absolutamente nada. Heitor, um lunático que conheci nas disciplinas que cursei na faculdade de filosofia, sempre dizia que o melhor método para escrever algo que valesse a pena era se dedicar a alguma atividade paralela que fosse inteiramente inútil. Vindo de um cara que havia atingido algum sucesso nos meios literários undergrounds, parecia algo importante a ser considerado. Tentei, sem sucesso algum, por quase duas semanas, arrecadar dinheiro de alguns trabalhadores braçais que jogavam damas no bar logo abaixo da minha nova residência. Parecia algo simples, pois eu era razoavelmente bom no xadrez. Um jogo no qual as estratégias eram realizadas com uma menor variedade de peças não parecia oferecer grandes dificuldades. Ainda mais quando os competidores eram pessoas que não tinham a metade da minha formação intelectual. Mas não deu certo. Aqueles homens cobertos de sujeira e com o hálito etílico tinham tanta habilidade para construir estratégias quanto qualquer enxadrista profissional. Desconfiei que tamanha habilidade viesse da necessidade de se virar com salários baixos e várias amantes. O fato é que perdi uma pequena parte do adiantamento da editora tentando arrumar algum tipo de inspiração. Anos mais tarde, quando novamente encontrei Heitor, o lunático, perguntei o que ele fazia e que lhe rendia boas idéias “Bato uma, duas, ou quantas punhetas forem necessárias”, respondeu, com um sorriso sacana na cara. Se eu soubesse disso antes, imagino que teria sido bem mais barato e talvez um pouco mais proveitoso do que o jogo de damas. Lola… Que coxas eram aquelas, meu Deus?

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Fragmentos I

Publicado: janeiro 25, 2012 em Uncategorized

Como poderia eu, descontente comigo mesmo, produzir algo que, para além da minha pretensão, pudesse causar algo digno de torpor nas pessoas? De fato, era esse o tipo de pensamento que me ocorreu quando recebi a terceira carta da editora cobrando os manuscritos. Fazia quatro meses que eu havia me mudado para uma casa ao sul da cidade, onde nem mesmo os carteiros se aventuravam entregar as correspondências. Todo tipo de informação que eu obtinha sobre mim mesmo era através de um garoto ao qual eu pagava uma parca quantidade de moedas para que fosse ao meu antigo apartamento buscar minhas correspondências. E não eram poucas, de modo que o moleque, tendo percebido a constância das cartas, não se intimidava em perguntar quando ele poderia voltar novamente.

Pensei em escrever sobre o caso que tive aos vinte com aquela prostituta cubana. Talvez fosse o tipo de experiência pela qual as pessoas se interessariam. Toda a expectativa da abertura de Cuba viria a calhar como pano de fundo para os três meses que passei ao lado de Lola. Não tinha sido grande coisa, é verdade. A menina se interessava mais pelas vitrines da padaria ao lado da minha casa do que em ter uma noite debaixo dos lençóis. Mas, com alguma astúcia, eu poderia converter aquele morno jogo de interesses – eu naquelas enormes coxas morenas; ela nos sanduíches gordurosos de fast food – em um romance sobre a desilusão do modo de organização social comunista. Se tudo desse certo, o sexo poderia ser lido por algum crítico como a libertação de um sistema opressor por natureza e utópico por tradição. Quem sabe eu poderia até mesmo reencontrar Lola e lhe pagar todos os sanduíches que ela conseguisse comer.

Untitled

Publicado: janeiro 17, 2012 em Uncategorized

Ela ainda acorda às 5 da manhã, todos os dias. Levanta-se, põe a água ferver, liga o rádio. Escuta a leitura de um trecho da bíblia e a homilia radiofônica. Bebe um gole de café. Volta para a cama e senta-se na beirada. Abre a gaveta e tira do criado-mudo o antigo terço, feito com minúsculas bolas de plástico que imitam cristais. A ladainha enche a casa com um som hipnótico, um mantra cristão. Na sala, vários oratórios, fotos de netos, cinzeiros e frascos de perfumes antigos. A ladainha, os quadros. Santa Luzia de olho nela. São Sebastião procrastinado, Oxossi por detrás da flecha. Oito ave-marias, o cheiro do café e o rádio ainda ligado.

Termina, guarda o terço e depois abre outra gaveta tirando de dentro dela um antigo relógio Seiko, daqueles que não possuem bateria,  aqueles que dão corda com o movimento do pulso. Nove e quinze da manhã, a hora exata em que o pulso que dava vida ao relógio parou de contar as horas. Há oito anos nove e quinze. Há noventa e dois uma mulher que agora, na sua reprodução particular do céu, espera pela sua hora, aquela em que o terço não se contemplará, o café esfriará na garrafa térmica azul e que, com bons olhos, Santa Luzia lhe encaminhará para junto de seu marido. Penso em meus sonhos que, sempre antes de guardar o relógio, ela o adianta em alguns minutos para acelerar o encontro combinado há anos mas, teimosamente, o relógio insiste em parar no tempo que lhe é próprio. Aí o meu sonho recua um pouco e posso escutar seus pensamentos enquanto reza seu terço: “Deus bondoso e piedoso, o que eu fiz para que ainda me conserves aqui, longe de todos para os quais rezei pedindo que estivessem junto de ti e que hoje realmente estão?

Aí ela se levanta, toma seu banho e pinga três gotas de almíscar nos pulsos. Coloca um vestido roxo, o mesmo que usou no funeral. No pescoço um colar com o Divino Espírito Santo ornado com pequenos brilhantes. Vai à igreja e na missa reitera seu pedido secreto, comungando no silencio e na complacência do seu olhar a dor secreta da solidão que é mal no mundo, pulgão na orquídea  tão roxa quanto o vestido. “Pai, por que não me levastes?”

Acordo. Santa Luzia e seu pratinho. Nove e quinze. Ninguém na casa. O cheiro de almíscar e o café ainda quente. Acho que, enfim, ela foi ter o seu encontro especial.

Belezinha

Publicado: dezembro 12, 2011 em Uncategorized

Belezinha tinha um sorrisão de Halls preto. A primeira vez que a vi achei patético alguém ter estampado na cara tamanha felicidade abobalhada. Um sorrisão besta daquele em meio a enormes coxas e peitos diminutos (mais tarde ela me confessaria que tinha trauma deles) correndo freneticamente naquela festa caída que por acaso resolvi ir. Um sorrisão, cabelos curtos e olhos enormes que sempre apontavam para o vazio de um lugar qualquer.

Belezinha era uma puta de uma puta. Mulher. Na primeira noite não nos beijamos e ficamos conversando até o dia amanhecer num bar que vendia sanduíches gordurosos e cervejas quase à temperatura ambiente. O dia já amanhecia quando resolvermos dormir. Na mesma cama. Vestidos. Ela com um muito curto e que deixava à mostra aquelas enormes coxas. Eu coberto da cabeça aos pés. Durante anos ela guardou para si que, naquela manhã, pela agitação do álcool ou pelo sono mal dormindo acabei por deixar minha perna esfregar nas dela e que aquilo tinha lhe dado enorme tesão. Eu dizia que era sonho (certamente se eu me lembrasse teria sido mesmo) e ela insistia que eu havia feito propositalmente.

Belezinha era assim, tinha na cara aquela inocência meio safada, curiosa e melancólica, como a Gisele do Carlos Mossy. Uma obsessão pelo sexo que parava no exato momento em que ele se aproximava. Acreditava piamente que o que os gays chamavam de sexo para ela era apenas preliminares. O pai era alcoólatra e a mãe uma secretária aposentada que viu sua carreira acabar quando o último pingo de álcool borrou a prova que saia ainda úmida do mimeógrafo.

Naquele dia acordei mais cedo que Belezinha. Coloquei um rock and roll das antigas e lhe expliquei que Jim Morrison era um excelente leitor de William Blake, Marx de Shakespeare e Sartre de histórias em quadrinhos. Ela ali, parada, sorrisão de Halls preto na cara.

Antes de ir embora me lambeu os olhos e disse que aquilo era para roubar os meus sonhos. Nem um único beijo. Somente uma esfregada da qual eu nem me lembrava.

Só fui encontrar Belezinha anos depois. Ela me dizia que tinha transado algumas drogas sintéticas, conhecido alguns músicos canalhas e que tinha viajem marcada para o sul no final do ano. Aquela capacidade de transformar qualquer assunto sério em chiste continuava intacta. O sorrisão também.

Despedi-me a tempo de lhe dizer que o poema só para Jaime Ovalle deveria ser só para ela e que tinha saudades do cheiro do sanduíche gorduroso, dos copos de cerveja quente e do perfume que ela comprara acreditando que ele tinha feromônios. Achei que ela não tivesse escutado – ela tinha um talento nato para não prestar atenção em nada. Porém, ela parou na metade do caminho e voltou. Sem sorrisão na cara e os olhos marejados. Meu deu um único beijo. Durante todo o tempo que eu conheci Belezinha ela me deu um único beijo. Um pagamento sem juros e sem correção pelas noites de sono que me imaginei transando com ela, pelos vários guardanapos com poemas que escrevi só para ela e pela devoção quase sepulcral com que me resguardei tanto tempo esperando apenas por ela.

Olhos marejados, sem sorrisão. Sem Halls preto. Um único e apressado beijo. Para meu espanto e tristeza o beijo de Belezinha tinha gosto de balas Soft. Coloridinhas, redondas e demasiadamente adocicadas. Aquelas que as mães tinham medo de entregar aos seus filhos, imaginando que eles pudessem se engasgar.

 

Carta para Blake

Publicado: julho 2, 2011 em Uncategorized

Blake,

Há tempos penso em lhe escrever algo lembrando a primeira vez em que nos encontramos, pois andei magoado com tudo aquilo que você me dissera, sem nenhum temor do que pudesse realmente acontecer. Sem a mínima consideração que lhe é tradicional, me reduziu ao nada com uma meia dúzia de versos quase ascetas:

E a paz se alcança com mútuo terror,

Até crescer o egoísmo do amor:

A Crueldade tece então a sua rede,

E lança seu isco, cuidadosa, adrede.

É Blake, não fomos nada gentis um com o outro. Eu esperava lhe causar certo constrangimento com minha inocente escatologia, aquela recém saída dos primeiros anos do bacharelado e que incutia nos ávidos a esperança de transformação. Mas sua fervorosa e caótica obsessão por Deus às vezes me incomodava. Não me importava muito o tipo de implicação metafísica contida nos meus atos. Ultimamente ando a tomar apenas uns bons tragos e fumar – isso sim, religiosamente – um cigarro, ou dois, compulsivamente. E que não me interessa muito o desejo pelo amor que se completa no mais puro ato de realização transcendente. Até mesmo porque as suas promessas de um julgamento nada favorável sobre a minha conduta, um tanto quanto melindrosa, já não afligem mais a minha alma.

Eu sei que a todo custo você tentou me convencer de que aquelas aterrorizantes imagens seriam minhas companheiras por toda a vida caso eu não abandonasse meus hábitos mais sorrateiros. Sabe de uma coisa? Que sejam. Não há companhia tão ruim que não possa ser amenizada com uma boa bebedeira. O álcool facilita as coisas, e o inferno já não parece tão quente e tedioso.

Ainda acho estanho como você e sua sagrada família, tão familiar aos hábitos e costumes de seu país, se recusaram veementemente a participar de todo esse processo de transformação e melhorias. São melhorias Blake! Novas botas para o frio, vitelo para as comemorações do fim do ano, novos tecidos para que Catherine (eu sei, você não a amava tanto quanto a outra) fique tão linda quanto as tulipas no começo do inverno. Mas concordemos: um amor quase sincero é melhor que uma verdade estendida à solidão. Mas do que vale guardar os dias santos se não há o que comer neles?

Esperei, e realmente esperei por muito tempo que eu ultrapassasse as canções de minha nada feliz inocência e chegasse à experiência pelo caminho mais doce e prazeroso.  Não aconteceu. A vida nem sempre é tão bonita e delicadamente organizada como as tapeçarias do Basire.

Talvez não adiante de nada esses meus ataques infundados à sua pessoa, à sua religião e ao seu amor mal cicatrizado. A verdade é que não superei ainda ver em você, assim como Marx dizia, a união entre o trabalhador e o poeta. Não consigo nem ao menos lapidar um pedaço de carvão para que seja feito dele o meu instrumento de escrita. Em verdade, e o que mais me dói, é que eu já morri há algum tempo, e você ainda viverá bastante.

“Compaixão, Pena, Paz & Amor,

Todos lhes rezam no seu sofrimento”

 

É assim que costumávamos nos despedir.

Com o carinho e a humildade que ainda me falta.

R.

Há certo receio em dizer algo que afronte alguma das novíssimas categorias sociais que, a cada dia, se sentem mais legítimas e solidificadas. Medo de ser encaixado em antigas e ainda mais sólidas categorias: homofóbico, católico, racista, machista, misógino. Algo sempre perturbou (e no futuro não será diferente) a incoerente e capenga classe média. A angústia de já não serem mais considerados pobres e mesmo assim nunca ascenderem totalmente ao status de ricos é aterrorizante. Sempre preferi os pobres e os ricos, mais autênticos em suas excentricidades.

Classe média é mediadora, o nome já diz. O piano de cauda na sala serve para acomodar as fotos dos netos e sobrinhos em Bariloche, carnês pagos direitinho, sem atraso, pois a multa é bem cara. Domingão é dia de churrasco e champagne. Baratinho, porque senão compromete o pagamento das parcelas do carro novo (banco de couro, direção hidráulica, ar-condicionado e tudo mais). Os velhos hábitos do novo rico, agora dono de uma próspera fábrica de rodos, ao se modificarem, tornam ainda mais evidentes as caóticas teias de referências sociais. Curiosamente, de alguns anos pra cá, as principais tentativas de legitimação de hábitos ou opiniões dessa classe pautaram-se por questões que antes ficavam no limiar da marginalidade e do desgosto.

Marcha-se, e à galopes velozes, por todo tipo de reivindicação que possa diferenciar cada cidadão da grossa massa de trabalhadores incautos. Querem fumar maconha (sempre o fizeram, mas necessita-se de um aval jurídico para perder instantaneamente o rótulo de maconheiro), unir estavelmente homens com homens e mulheres com mulheres (tenho um parente que vive, pelo menos há 20 anos, com o mesmo namorado e nunca se deu ao trabalho de tantas xurumelas legislativas), andar de bicicleta e não serem mortos, pois optaram por deixar o sedan em casa e respirar um ar mais puro e saudável do alto dos selins de suas magrelas. Não comem mais carne, não comem suas mulheres, não comem o corpo de Cristo transubstanciado. Pura demagogia pop art.

Sempre achei brilhante e autêntica a atitude do Deínha, uma bixinha que estudou comigo no colegial. As meninas o detestavam pela bunda durinha e pela facilidade que ele tinha em arrumar transas ocasionais. O Baiano, dono da biclicletaria era a paixão de Deínha. Curiosamente o Baiano era pernambucano e branco – gabava-se de ser descendente de holandeses – e tinha um amor incondicional por aquele negrinho que não hesitava em satisfazê-lo quando o expediente encerrava. Em troca, algumas câmaras de ar e catracas novas para a bicicleta. Não ia da Casa grande à Senzala. Ia da Senzala ao Terreiro. Todos sabiam disso, inclusive a mulher de baiano, uma gorda que transava com o menino das entregas, responsável por lhe arrumar maconha sempre que ela se sentia mais aflita com as contas a pagar. Salgadeira de mão cheia, Berenice nunca reclamou. Todos transavam, gozavam seus delírios particulares e pagavam em dia o carnê da geladeira duplex.

A classe média sempre fez e vivenciou isso. Os ricos também. Não creio que a maioria dos estilistas, vivans, empresários e marchands sejam bem casados, com esposas e filhos gorduchos. Mas também não se importam nem um pouco. Bali está linda e na próxima semana tem República Dominicana. Se o marido cansar (ela tem 35, ele 70), o caseiro não cansa nunca, viril e subordinado. Uma maravilha de mulato. Quietinho, não dá na língua pra não perder o emprego e a mulher.

Mas a classe média precisa de algo para se diferenciar e fez da “exclusão” sua bandeira e problemas na ordem do dia. Lutar pelos direitos iguais e tentar tornar diferente algo que nunca chegará a se definir (ao menos culturalmente) como algo genuíno. Tudo assim, malucamente legitimado. Em meio a tantos reclames, tantas necessidades, tantas desigualdades, nada me parece mais gritante que um orgulho, uma dor no cotovelo que é, essa sim a principal característica de uma parcela da população que não se encontrou ainda com suas raízes e aspirações. Entender, sem culpa, que não é menos digno ou mais perturbador assumir suas particularidades como um produto do seu próprio tempo, sem acusados, culpados ou inocentes. Ainda lembro do meu avô, ao ver no noticiário as manchetes sobre o grande volume de marchas, fazer um dos comentários mais sensatos sobre tudo isso:

-Desliga isso aí meu filho, se a gente não chegar cedo pra pegar a aposentadoria o banco fecha e aí não vai dar tempo de ir ao postinho fazer a consulta. Esse bando de bixa maconheira não tem jeito. Eu ainda sou do tempo que fumar era bonito e dar a bunda era feio.

O velho é sábio e nada bobo. Não pensem que sou reacionário, marxista, milionário ou tenho a banda mais bonita da cidade. Se eu não parar de escrever essas merdas atraso o meu trabalho. Aí fico sem internet e não terei grana pra pagar as 5 últimas parcelas no meu notebook. Lindão, com Core I5.

Mid Blague pop up.

Publicado: junho 30, 2011 em Uncategorized

Pastilhas para freios, para gargantas, pára-raios de loucos e borboletas filosóficas. Performances com tintas beterrabas. Corpos nus e almas lacradas. Zés pilintras, pilantras, camisinhas para anabolizados e menininhas antes do gozo.

Heróis hesitantes bebem vinho uma, duas, três, sete vezes. Corpos se esfregam no balanço menos frenético da noite acinzentada. O pau mole, o coração duro e o sorriso que garante o atestado de amor incondicional pelo menos por alguns segundos. Bela dama da boca dormente, senhora cocaína.

Como os pombos, mendigos se atiram deliberadamente sobre as migalhas prateadas que lhes são lançadas. A fonte de todas as vontades vira um enorme ofurô. Peles de onça e rímel, botas apressadas e meias rasgadas disputam com os carros de som quem chega primeiro ao bar mais próximo : 15 a 30 frames por segundo.

-Eu pago o pato, pago aqui pago acolá.

-Besta é tu, besta é tu.

O samba se mistura ao xadrez e às matrioscas. Caveiras ornadas com falsificações de Swarovski são compradas aos montes nos camelos tecnológicos. Pilhas de rádios, óculos para ver melhor a Bele Du Jour que de dread locks arrasta elegantemente sua carroça de papelão. (Poupa tempo, o triangulo dá sorte.)

O repente soa estridente dentro do amarelo 131 – sentido Morumbi. No meio do caminho o Shopping lembra aos rostos enquadrados nas janelas que a estética da fome não é mais engajamento estético. É orgulho glauberiano e marcha sem perdão. Marcha pela maconha, pela liberdade de dar a bunda, por qualquer coisa que diferencie a classe média. Intermediária por natureza. Sem identidade por coerção.

Enquanto a dor mais dissimulada tenta ganhar as ruas e fazer dela seu perdão por não a(r)mar mais como antes, todos os corpos ainda estão lá, parados, olhando para o próximo trend surreal, o palavreado mais cool e o sabor de pizza mais exótico. Nada era como no futuro, tudo se transformou num eterno presente. Ocioso, blasé demais para os desesperados, pastiche demais para os debochados. No fim o que sobra é a blague atemporal de que ainda vivemos na melhor das épocas. Bonitinha, mas ordinária.